poemas de Marina Bandeira
a mãe do que existe,
a mão do que existe
não tem rosto.
sinto muito
mas condenso tudo
meu purgatório é dentro
meu sentimento atento.
quando penso que sou
dona do que
quero que me pertença,
sinto a mão
sem-rosto
me deixando presa:
pensa, pensa.
um grego é imbatível no mar
um troiano na terra
virar dono é tomar:
paciência ou pressa?
numa fenda ou numa tenda
me custou encontrá-lo.
por onde o sol fazia curvaturas
não perdi o fio da espreita.
e o nó foi grande:
pensei ser fácil desatá-lo na
ponta do oceano agudo.
meu pai perdeu o cheiro
pra ele.
foi difícil encostar nessa ideia.
outros filmes passaram-se
laranjantes.
virou a minha cor.
eu laranjava tudo.
virei sépia.
yo vide una garza mora, também.
e minha casa definiu sua rua
sem ambição de ser pedra.
você leu pra mim
aquele verso fisgador
que dizia
que a vida ia pesar comigo
então
eu deveria pesar igual
pra garantir o um a um.
não é quando
é contigo:
o verbo amassado
rasgado e infringido
a gente e um som
dançando o que
não é música
bailando
o que não dá em um.
aquele verso
fisgador
senti do cóccix à nuca
não precisa de leitura
de verbo
ou
de armadura
precisa de reforço
uma boca, um desadoro
um dia verde, o sempre nunca
e isso é
fora do comum.
não te dou patrocínio.
não se o não
ultrapassar a nuca.
na madruga eu ouço o sino:
te vejo em dia
de são nunca.
tu te afundas
no firmamento
enquanto as coisas
tomam um tino.
depois da reza
a gente dorme
pesando ao ninho
enquanto há porre.
haverá o novo desmontando
o quarto.
na inconsistência das portas
escorrerão as areias
do tempo.
atrás dos muros
um prego mole
entrará fácil por aqui
–
(um prego-mudo
um prego-mundano
com uma preocupação
antitetânica).
perderemos os livros
guardadores de segredos.
haverá paralisia dos olhos
com o propósito
do novo.
a reinvenção das deidades
será anunciada das janelas.
a ardência juvenil
durará 110 anos.
seguraremos as mãos
da esperança
com uma vontade de mãe.
não haverá mais casas.
não haverá o conceito
semântico de Casa.
as maçanetas nos despertarão
do sono
das mágoas.
daí então
depois desse movimento
é que estaremos suaves
como quem constantemente
sustenta a fé
no que não é claro.
quando na metade da noite
acendes um de fumar
queres que te levem embora
junto ao trago.
um garrancho de cachos
um cabelo noturno forma.
ainda estão em obras
meus meninos de olhar.
pareces superar o que
a felicidade aguarda:
não guardas vontade alguma
de estar feliz.
já consta nos autos
que não proteges o agora –
e que o amanhã, por ser azarado,
a ti nada significa.
(nesta imensa serra imprecisa,
alongar o que a presença invade
é estremecer certeiro
o erro de saltar.
somente seja ligeiro:
guarde nas mãos esse hiato
que é o tempo de se ir
como um trago
no altar).
Antes que as coisas ousem
Ser sem que eu esteja
Quero uma bandeja
D'água pra mergulhar
Lavar o juízo e a incerteza
Beber qualquer taça num altar
Antes que as coisas sejam
Coisas de eu não estar
debaixo da gota
ainda ouço o azul
de um porto que chega
adornando o verão
queria poder relembrar nesse instante
o tempo que passo contigo na mão
esqueço o que marco
confundem-me as horas
só sei que uma gota
começa a azular
depois de um momento
lembro mesmo agora:
que eu, de repente
esqueci de contar
os dois dizem a verdade
não há voz que se encaixe melhor
enquanto a manhã de julho arde
uma ode ao escuro, noite de antes
lembraram que
ontem ninguém mentia.
além das coisas da manhã
café coado e pão
aqui há de ouriçar
vontades hortelãs
vi mais que a serra desdobrar:
vi a tristeza andar
com dois, com três
manhãs
além de ter verdade ou não
as coisas como são
nunca vão concordar
que bom que eu não morri
no vão
saudade do quintal
café coado e pão
reconheço a chama pelas costas:
gosto quando uma coisa nasce
lamento nas águas
obedeço a preamar
viro filha do olho que aguarda
só de ver o novo brotar
uma voz rouca me para no caminho
“o teu silêncio ora certo”
e logo o novo fica esperto
com aquele cheiro de ninho
a gente flerta junto
só pra não caber.
o fora-de-nós, que é irreal,
nos move
a ferro a fósforo a punhal.
três vezes bati minha
cabeça
contravida
que é essa
coisa de ficar mexendo os paus
e as máscaras e as condições planíssimas
que nunca serviram.
não é natural que
sejamos nós
o destruído caminho e
a caretice do estar.
nem é normal que
sejamos por nós
felizes
em festas em fórmulas em frente ao circo
com o sempre pavor do choque de
chegar lá.
primavera se abriu onde ninguém existia
aqui só há um: e somos nós
da janela espreitamos os outros
serão outros ou estamos disfarçados?
tive sempre a ilusão
de que passeavam para mim
as pessoas e suas graças
as tristezas e os jasmins
(sustentando o humano).
já nos acostumamos no esconderijo
e é intensa nossa casa:
avaliamos os transeuntes
e somos eles descansados.
de tanto ver desfilar o presente
e descarrilhar o futuro
crescemos bagunçados
sortudos e envelhecendo.
agarrada ao meu tédio
uma sombra de mim
tem lugar pra escorar
enlouqueci com a possibilidade
de que tudo pode se desviar
penso num quadro à meia tarde –
não quero mais me preservar.
não tenho grama no jardim
mas tenho ganas de simples-ser
quero mil coisas de entristecer
e amanhã livrar de mim.